domingo, 18 de março de 2012

Quando o fardo se torna esperança...

No último sábado (17 de março), nós da Cia. Rogê tivemos o prazer de assistir ao belíssimo espetáculo O MENINO E A FLOR do Grupo de Teatro Arte e Movimento – experiência que tentarei descrever aqui no Canal Glitter, mas que já adianto, se mostra insuficiente tamanha a qualidade do trabalho.

Por Emílio Rogê
Crédito das Fotos:  Fabi Caiado 



O menino e a flor é um espetáculo informativo – que busca através do teatro explicitar o drama de uma família que descortina suas mazelas sobre à sombra do filho autista. O texto é assinado conjuntamente pela dupla Márcio Borges e Valéria Monteiro. Sem sombras de dúvidas um acerto que valoriza uma produção impecável e exitosa no seu objetivo principal: informar ao público sobre o autismo e principalmente desmitificá-lo. A peça é do começo ao fim pura emoção, e as percepções e descobertas servem para nos alertar sobre um tema quase nunca abordado: o autismo.

O espetáculo é cuidadoso e cauteloso ao abordar o tema. Mas não pense que estamos diante de um espetáculo chato, ou pedagógico, ou didático. O que o Grupo de Teatro Arte e Movimento faz é Teatro (com T maiúsculo), uma obra de arte ao nosso alcance, para prazer e deleite.

Muito bem construídas e bem dirigidas, as personagens são extremamente humanizadas, são figuras reais. É muito difícil enxergar mocinhos ou vilões numa história em que todos vão se desconstruindo e se aniquilando humanamente. Temos um pai, uma mãe e quatro filhos que vão se mostrando na rotina familiar: deficientes enquanto seres humanos, todos eles – a exceção de Betinho, o filho que está autista.

Fernando Gomes: Um ator exemplar
Aqui eu abro um parêntese. O que é assistir Fernando Gomes em cena? Não o conheço, não havia visto nenhum trabalho até então, mas sem medo de incorrer em erro, sua interpretação é de longe a melhor vista em tempos, em palcos uberabenses (por um ator uberabense). Eu sabia que não veria uma caricatura, mas não imagina algo tão primoroso, tão tocante e tão dilacerante. Seu Betinho faz a gente se sentir como ele – preso num enorme berço, amarrados pelo espectro do preconceito e da desinformação. É lindo ver um ator tão preparado, tão entregue e tão consciente em cena. O espetáculo por si só valeria por ele. Fecha o parêntese.

Mas não, somado ao talento de Fernando Gomes, ainda temos em cena: Valéria Monteiro e Márcio Borges, enlouquecidamente absurdos de perfeitos como os pais da família de Betinho. Temos os outros três filhos: Pedro Misson (Carlos Eduardo), Mariana da Costa Dias (Joana) e Getúlio Pisa Carneiro (Francisco), que juntos completam o núcleo familiar principal. Todos estes atores se completam e se consomem num jogo cênico maravilhoso. A família está ali, na nossa frente, expondo suas mazelas e dramas num jogo de infinitas emoções. Muitos ali, estão em sua primeira empreitada teatral, mas é difícil dizer quem é quem, tamanho envolvimento e entrosamento do grupo.

Essa família poderia ser a minha ou a sua.
Além deles, temos ainda: Ana Lucia A. Lopes como a impagável D. Ivone, o anjo Vinicius Barrosos Lacerda e a flor de Lótus Iná Laranjo. Cada um deles, a seu modo particular, atuando como só quem é ator de verdade pode atuar. Já adianto que este trio me conquistou!

Apresentado então esse elenco divino, a definição que eu tenho para o encontro deles em cena é: um soco no estômago a cada cinco minutos. A catarse é completa: a gente se enxerga dizendo aquele texto, se enxerga pensando o que eles pensam... Por um minuto, nos permitimos sentir o mundo sobre a ótica do autista. Não sei se estou sendo claro, mas deve ser infinitamente maior que isso – porque no fim do espetáculo a gente sai mudo, sem dizer muita coisa. Porque é profundo demais pra morrer ali quando fecham-se as cortinas e as luzes do teatro se apagam.

No programa do espetáculo, nós temos o link do site Estou Autista (www.estouautista.com.br) e é pra lá que acho que todo mundo deveria correr. Eu não vou adiantar muita coisa, mas vocês vão se surpreender com as histórias e progressos incríveis do Luiz Júnior, que com amor e compreensão de sua família tem vivido um dia de cada vez e que vai descobrindo o mistério infinito que é viver. (Mais ou menos como todos nós deveríamos viver).

Valéria e Márcio em cena: sensação única e indescritível!
Eu fico contente quando eu vou ao teatro e vejo um bom espetáculo, porque este é o ofício que eu escolhi e que eu respeito demais. Mas o que me deixa pleno e realizado é quando nós temos este encontro (infelizmente raro) entre Arte e Cidadania. Quando o palco transforma-se na sua missão legítima – o espaço de todos e todas, a nossa vingança para um mundo que valoriza o individualismo, a segregação, e que despreza o diferente.

Pedro Misson e Márcio Borges.
Se você não teve a chance de assistir ao espetáculo O MENINO E A FLOR, prometa-se presentear sua alma com uma peça que informa e que cativa e que ainda nos faz crer que dias muito melhores virão. Vida longa ao trabalho dos amigos do Grupo de Teatro Arte e Movimento. Vocês são iluminados! Estamos ansiosos pela próxima temporada.

Ficha Técnica do Espetáculo

Direção Artística e Texto
Márcio Borges e Valéria Monteiro

Assistente de Produção
Josiane Júnia Alves Barbosa

Iluminação
Tony Reis

Contra Regras
Josiane Júnia Alves Barbosa
Bruna Bastos Dragone
Cléber Fernandes

Figurino
Telma Oliveira

Produção Cabelo / Maquiagem
Ana Carolina Podboy M. Borges

Trilha Sonora
Nicholas Gunn – Return to grand
Canyon

Fotos
Dennis Gomes

Produção Gráfica
Thiago Gomes

Elenco

Valéria Silva Monteiro – Das Dores (Mãe)
Márcio Borges – Sr. Ferreira (Pai)
Fernando Gomes – Betinho (Filho)
Pedro Misson – Carlos Eduardo (Filho)
Mariana da Costa Dias – Joana (Filha)
Getúlio Pisa Carneiro – Francisco (Filho)
Ana Lúcia A. Lopes – D. Ivone (Mãe Sr. Ferreira)
Vinícius Barroso Lacerda – Anjo
Iná Laranjo – Flor de Lótus

Elementos
Gabriela Martins e Jean Gomes de Paiva (Ar)
Ana Paula Amaral, Nícolas Almeida e Yan Laranjo (Fogo)
Rafaela Borges e Adolfo dos Santos Sobrinho (Terra)
Gabriel Cristiano Costa Dias, Renata Vilaça e Thiago Gomes (Água)

Apoio Cultural

Arte e Movimento Studio de Dança
Apae – Uberaba
Carboni – Editora e Gráfica